segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ritalina- "Doping Mental"



Muitas pessoas vêm ao consultório buscando uma prescrição de ritalina( metilfenidato). O objetivo é melhorar a concentração, a memória, o desempenho cognitivo. São estudantes, vestibulandos, concurseiros que buscam "turbinar" suas capacidades de performance. Depois que algumas revistas de circulação nacional implantaram a ideia das "pílulas da inteligência", isso tem se tornado mais frequente.

Além da ritalina, outra substância propagandeada como milagrosa é a modafinila( stavigile), pois aumenta o nível de vigília, auxiliando nos estudos!


Em primeiro lugar, cabe ressaltar que estamos falando de medicamentos. Não estamos falando de substâncias inócuas, que podem ser usadas sem controle médico. Muitas pessoas abusam de substâncias na busca de uma promessa falsa de milagres. Não existem milagres! Tanto a ritalina, quando a modafinila não são milagrosas. As indicações da ritalina estão definidas para o tratamento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade(THDA), tanto em crianças como em adultos. A modafinila( stavigile) está indicada para o tratamento de narcolepsia( um tipo de distúrbio do sono, em que o paciente tem ataques diurnos de sonolência incontrolável).

Em segundo lugar, os medicamentos podem causar efeitos colaterais e têm risco raros, mas graves. Portanto, o uso precisa ser criterioso. Usar esses medicamentos sem acompanhamento psiquiátrico é um risco desnecessário pela promessa de benefícios pela mídia.

Em terceiro lugar, uma pessoa que não seja portadora de TDAH vai ter uma resposta muito discreta ao uso da ritalina. O mesmo cabe para a modafinila. Se a resposta for exuberante significa que a pessoa já tinha algum grau de hiperatividade ou desatenção clinicamente tratáveis. Pessoas normais não respondem a esses medicamentos de maneira "tão miraculosa", como apregoam os meios de comunicação ou os amigos que conseguem esse medicamento nas farmácias sem receita!

Em quarto lugar, inteligência é um conjunto de habilidades , nas quais se incluem a memória e a concentração. Provavelmente vai haver um aumento discreto no desempenho cognitivo quando corrigimos o déficit de neurotransmissão em casos leves. Em pacientes com TDAH severo, a correção neuroquímica é suficiente para modificar o desempenho cognitivo em níveis significativos. Aí podemos afirmar que o tratamento faz verdadeiros milagres! É como corrigir a visão deficiente com lentes de aumento. A deficiência de transmissão dopaminérgica e noradrenérgica no TDAH impede o aproveitamento das potencialidades mentais do portador. Ele fica com dificuldades de aprendizagem, com o seu desempenho acadêmico e laborativo abaixo da sua verdadeira capacidade.

Muitas pessoas portadoras de TDAH não buscam ajuda e pagam o preço alto de serem tachados como preguiçosos, incapazes, "burros", enquanto a sua autoestima vai encolhendo. Dependendo da inteligência( mais alta), conseguem compensar os déficits até chegarem num ponto de demanda acadêmica muito exigente( como mestrado e doutorado), o que revela a ineficiência dessas compensações no decorrer dos anos. Nessa fase o paciente acaba se rendendo às evidências e busca ajuda psiquiátrica.

Então, temos dois cenários: os portadores que precisam e não buscam.Mais de 90 % dos adultos que são portadores de TDAH não estão em tratamento e precisariam estar. O outro cenário é de pessoas saudáveis que querem uma solução química para o desafio de passar em provas. Isso não vai funcionar, nem substituir as receitas antigas de dedicação, muito estudo e perseverança!

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